ceu Cão
de Caça, que usava um manto branco de neve sobre a
armadura cinza-escura, com quatro dos membros da
Guarda Real à sua volta. Viu Varys, o eunuco,
deslizando entre os senhores em chinelos suaves e com
uma toga de damasco estampada, e achou que o homem
baixo com a capa prateada e barba pontiaguda devia ser
aquele que tinha um dia lutado em duelo por sua mãe.
E ali, entre eles, estava Sansa, vestida de seda azul-
celeste, com os longos cabelos ruivos lavados e
encaracolados, usando braceletes de prata nos pulsos.
Arya fechou a cara, perguntando a si mesma o que a
irmã estaria fazendo ali, e por que parecia tão feliz.
Uma longa fileira de lanceiros de manto dourado
segurava a multidão, comandada por um homem forte,
com uma armadura elaborada, toda ela de laca negra e
filigrana dourada. O manto tinha o brilho metálico de
ouro verdadeiro.
Quando o sino parou de soar, um silêncio foi lentamente
cobrindo a grande praça, e seu pai ergueu a cabeça e
começou a falar, com a voz tão fraca que Arya quase não
conseguia ouvir. As pessoas atrás dela começaram a
gritar "Quê?", "Mais alto!". O homem com a armadura
de negro e dourado aproximou-se do pai e aguilhoou-o
com força. Arya quis gritar Deixe-o em paz!, mas sabia
que ninguém a ouviria. Mordeu o lábio,
O pai ergueu a voz e recomeçou.
- Sou Eddard Stark, Senhor de Winterfell e Mão do Rei -
disse, mais alto, fazendo a voz chegar a toda a praça -, e
venho até vós para confessar minha traição perante os
deuses e os homens.
- Não - choramingou Arya, Por baixo dela, a multidão
desatou a berrar e a gritar. Insultos e obscenidades
encheram o ar. Sansa escondera o rosto nas mãos.
O pai ergueu a voz ainda mais alto, esforçando-se por ser
ouvido.
- Traí a fé do meu rei e a confiança do meu amigo Robert
- gritou. - Jurei defender e proteger seus filhos, mas
antes ainda que seu sangue arrefecesse conspirei para
depor e matar seu filho, e tomar o trono para mim. Que o
Alto Septão, Baelor, o Amado, e os Sete sejam
testemunhas da verdade que digo: joffrey Baratheon é o
verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro, e, pela graça de
todos os deuses, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do
Território.
Uma pedra saltou da multidão. Arya gritou quando viu
o pai ser atingido. Os homens de manto dourado
evitaram que caísse. Sangue escorreu-lhe pelo rosto,
vindo de um profundo golpe na testa. Mais pedras se
seguiram. Uma atingiu o guarda à esquerda do pai.
Outra retiniu na placa de peito do cavaleiro com a
armadura de negro e ouro. Dois homens da Guarda Real
puseram-se na frente de Joffrey e da rainha, protegendo-
os com os escudos.
A mão de Arya deslizou sob o manto e encontrou a
Agulha na bainha. Apertou os dedos em volta do cabo,
com mais força do que jamais tivera de usar. Por favor,
deuses, mantenham-no a salvo, orou, Não permitam
que façam mal ao meu pai.
O Alto Septão ajoelhou perante Joffrey e sua mãe.
- Como pecamos, assim sofremos - entoou, numa voz
profunda e empolada, muito mais forte que a de Stark. -
Este homem confessou seus crimes à vista dos deuses e
dos homens, aqui neste lugar sagrado - arco-íris
dançaram em volta de sua cabeça quando ergueu as mãos
numa súplica. - Os deuses são justos, mas o Abençoado
Baelor ensinou-nos que também são misericordiosos. O
que será feito com este traidor, Vossa Graça?
Mil vozes gritavam, mas Arya não as ouviu. O Príncipe
Joffrey... não, o Rei Joffrey... saiu de trás dos escudos de
sua Guarda Real.
- Minha mãe pede-me que permita que Lorde Eddard
vista o negro, e a Senhora Sansa suplicou misericórdia
para o pai - olhou então à direita para Sansa e sorriu, e
por um momento Arya pensou que os deuses tinham
ouvido sua prece, até que Joffrey voltou a virar-se para
a multidão e disse: - Mas elas têm coração suave de
mulher. Enquanto eu for vosso rei, a traição nunca
passará impune. Sor Ilyn, traga-me a cabeça dele.
A multidão rugiu, e Arya sentiu a estátua de Baelor
balançar quando todas aquelas pessoas a empurraram. O
Alto Septão agarrou a capa do rei, e Varys aproximou-se
correndo, sacudindo os braços, e até a rainha estava lhe
dizendo alguma coisa, mas Joffrey balançou a cabeça.
Senhores e cavaleiros afastaram-se quando ele passou,
alto e descarnado, um esqueleto em cota de malha, o
Magistrado do Rei. Indistintamente, mesmo que de uma
grande distância, Arya ouviu a irmã gritar. Sansa caíra
de joelhos, soluçando histericamente. Sor Ilyn Payne
subiu os degraus do púlpito.
Arya contorceu-se entre os pés de Baelor e atirou-se
sobre a multidão, puxando a Agulha, Caiu em cima de
um homem com um avental de açougueiro, atirando-o ao
chão. De imediato, alguém esbarrou em suas costas, e
quase que ela própria caía também. Corpos apertavam-se
em volta, tropeçando e empurrando, pisoteando o pobre
açougueiro. Arya atacou-os com a Agulha.
Bem no alto do púlpito, Sor Ilyn Payne fez um gesto, e o
cavaleiro de negro e dourado deu uma ordem. Os homens
de manto dourado atiraram Lorde Eddard ao mármore,
projetando-lhe a cabeça e o peito sobre a borda.
- Ei, você! - gri